terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Água para irmãos com sede"


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Lembra-se da postagem do dia das mães, onde compartilhei o projeto "Água para irmãos com sede"? (Dia-das-Maes)

Pois é, no último domingo foi a entrega dos caminhões-pipa. Abaixo compartilho com vocês o agradecimento especial de Danillo Savicius, que criou e administrou o https://www.vakinha.com.br/vaquinha/agua-para-irmaos-com-sede, o valor arrecado possibilitou amenizar um pouquinho a realidade dura de quem vive no sertão Pernambuco e Baiano.

Eu, Amélia Loreto, agradeço imensamente a todos que contribuíram com esta ação.

Abaixo veja o resultado das doações.

"Finalmente chegou o dia das doações  serem convertidas em água para quem precisa, mas ao invés de explicar em números, vou tentar através da experiência que tive e vivi no dia de hoje.

Sinceramente minha expectativa era que hoje estaria finalizando o último ciclo do projeto que passou pelo planejamento, divulgação, coleta das doações, prestação de contas e finalizando com a entrega. Ontem essa sensação de ‘’pré-dever cumprido’’ aumentou quando recebi a informação do coordenador do ‘’Água para Irmãos com Sede’’ que dado o volume das doações, foi possível negociar com os ‘’pipeiros’’ (donos dos caminhões pipa que entregam a água) um valor reduzido em cada caminhão, passando de R$150,00 para R$100,00 e com isso seria possível atender 30%  mais pessoas, totalizando 48 caminhões pipa, 384 mil litros  d’agua e atendendo a 240 pessoas.

Durante essa semana após uma visita prévia na comunidade de Rio Pontal um, levantamento rápido contabilizou que nela vivem 35 famílias que estavam em diferentes níveis de necessidade d’agua, e que a fim de atendermos os casos mais urgentes, ficou definido que seriam atendidas aquelas cujo reservatório estava abaixou de 4.000 litros ou menos da metade, sendo assim a necessidade desta comunidade era atender 17 famílias que passavam por situação crítica.

Chegamos hoje pela manhã quase em carreata junto dos pipeiros e fomos recebidos com certa surpresa e desconfiança pela comunidade. Logo fomos atendidos pela líder comunitária local que nos ajudou a organizar a entrega e daí para frente foi o dia inteiro de emoções e sentimentos difíceis de traduzir.

Logo na primeira casa, que era também a da líder comunitária, durante o abastecimento de sua cisterna que tinha no máximo dois palmos d’agua no fundo, fui surpreendidos por outras duas moradoras que indignadas cobravam ‘’justiça’’ e explicações do porque elas não seriam atendidas mesmo que suas casas estivessem mais abastecidas do que a dos demais. Ainda houve uma desconfiança de que eu pertencesse a algum partido político e quisesse algo em troca.

Já na segunda casa, atendemos a uma família com um casal cujo Sr. por um problema na próstata está inválido a mais de um ano e que por isso sua esposa conta com ajuda dos seus 4 filhos dividindo uma aposentadoria de uma salário mínimo tendo que fazer milagre para sobreviver.

E assim seguimos, abastecendo as casa, conversando com os moradores, transformando ‘números de doação’’ em rostos e histórias de vida, eu soube que a comunidade era uma área invadida por essas famílias há pouco mais de 13 anos e que sem suporte ou qualquer ajuda governamental, tiveram que limpar o terreno, demarcar seus espaços e construir suas casas por conta própria. Ficou ainda mais evidente o descaso do Estado quando soubemos que em uma dessas campanhas políticas ao longo dos anos, foi prometido uma rede que ligasse água potável à comunidade; De fato existe o encanamento, instalações e torneiras, mas jamais foi ligada à rede que passa a pouco mais de 15 km de distância e nestes anos todos a única vez que essas torneiras viram água foi na ‘’inauguração’’ do encanamento e nunca mais, a não ser pelas cisternas quando abastecidas.

Outra surpresa, se bem que a essa altura do campeonato não sei bem se essa era a melhor palavra, descobrimos que mensalmente o exército faz uma doação de 16 caminhões pipa para a comunidade ou algo em torno de 3.600 litros por família, mas que algumas eram privilegiadas e outras ficavam sem uma gota d’agua (oi?).

E assim fui descobrindo que no meio de uma comunidade tão pequena e com tantas necessidades, ainda assim havia casos de disputa por água (brigas de fato), pessoas que bebiam água da chuva para aproveitar cada pingo ( quando essa vinha), que inicialmente havia criação de animais como cavalos e outros mas que hoje só restaram os bodes que são resistentes á seca, pipeiros aproveitadores que dada a necessidade chegavam a cobrar R160,00 por um caminhão,  inúmeras promessas de candidatos políticos que jamais foram cumpridas entre outras situações que barravam qualquer direito á uma vida mais digna.

Por outro lado, apesar de toda a dificuldade, a fé sempre esteve presente na vida dessas pessoas onde pude sentir através de cada agradecimento, havia uma certa organização entre as famílias inclusive algumas dispostas a dividir sua água com outros que não teriam ‘’direito’’ e em quase todas as passagens nos foi oferecido um copo d’agua por mais que isso fosse o único item que eles tivessem pra oferecer no momento, sem qualquer ironia. Por fim houve ainda quem se dispusesse a abrir a casa de seu vizinho, cuja casa abandonou adoentado para tratamento, a fim que também pudesse receber um ‘’gole d’agua’’ como chamam para sua cisterna não secar.

Por fim após ter estado das 07:00 as 16:00 nesse mundo tão diferente do meu, termino o dia com dois sentimentos bastante distintos e antagônicos:

Fico realmente  triste em ver in loco aquilo que nos parece tão distante pela televisão e descobrir que infelizmente ao meu ver, a palavra sub-humano não seja suficiente para descrever a situação em que essas pessoas vivem ; Porém ao chegar em casa e abrir a torneira me senti verdadeiramente privilegiado e feliz com algo que sempre esteve presente em minha vida mas que não tinha a devida atenção.

E creio ainda que apesar do clichê, uma imagem vale mais que mil palavras e as fotos de hoje darão uma dimensão melhor ao textão acima!


Obs: Terminamos o dia com 23 caminhões pipa doados, somando 6 aos 17 inicialmente planejados e portanto temos ainda mais 25 para doar nas próximas semanas". (Danillo Savicius) 



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